Como organizar uma campanha eleitoral II

Continuando o posto anterior “Como organizar uma campanha eleitoral I”

COMUNICAÇÃO, JURÍDICO, LOGÍSTICA, MOBILIZAÇÃO, PROGRAMA DE GOVERNO

• Numa linha horizontal e com mesma importância no organograma ficam todas as outras áreas das campanhas. Nos próximos dias vou complementar este post detalhando cada uma destas áreas e sugerindo como organizar o fluxograma para que tudo funcione direito. Como uma empresa daquelas líderes de mercado.

• Escolhidos os coordenadores geral e financeiro da campanha, caberá a eles a tarefa de definir os custos e o cronograma de atividades. Sim, companheiro, primeiro você tem que definir o budget, o orçamento, depois procurar os profissionais para realizar o trabalho. Estranhou? Está acostumado a sair perguntando o que a pessoa/empresa propõe e quanto custa isso? Pois tá errado. Então vamos a um passo a passo:

• Começamos comparando a montagem de uma campanha eleitoral à fundação de uma empresa. Se concordamos com isso vamos concordar também com o fato de que toda a empresa que se preze tem orçamento e meta, certo? Ou você já viu alguma empresa que sai gastando, gastando, contratando amigos, familiares, filhos de amigos, aposentados, apadrinhados e depois vai ver como ficou, como paga as contas? Se você já viu, certamente não vê mais, pois a tal empresa deve ter falido ou vive de favores.

• Então se você é daqueles que pergunta quanto custa antes de saber o que quer, não pretendo ser grosseira, mas sinto muito, você é um amador. Eu até entendo, nem toda campanha eleitoral no Brasil é profissionalizada e essa “batata quente” caiu na sua mão meio sem querer, agora você tem que resolver de qualquer jeito (literalmente). Se este é o seu caso, vai aqui um conselho de graça: procure antes se informar, veja o quanto você pode gastar, enxergue o quadro de forma geral, veja quais são as suas possibilidades, procure os melhores profissionais para depois formar a equipe e contratar serviços. E se, ao contrário, você já não é mais marinheiro de primeira viagem e continua cometendo os mesmos erros, hum…deixa pra lá, que a amizade continua, afinal, amigos, amigos, negócios à parte.

• Prosseguindo: não confunda ficar no budget com pechinchar serviços profissionais. Vou ser mais clara: faça um orçamento e procure contratar o que tem de melhor, de mais eficiente, dentro desse preço. Não faça politicagem com o que tem de mais fundamental nessa hora, que é o dinheiro que vai fazer a sua campanha rodar de forma competente. Fale com quem entende. Procure o que tem de melhor dentro da sua realidade. Não prometa o que não pode pagar, nem contrate quem você não pode demitir. Também não contrate um serviço apenas porque é mais barato ou porque é amigo. Contrate menos porém melhor. Ou seja, não jogue dinheiro fora com excessos, firulas, bobagens, frescuras, medalhões, gente que não trabalha ou que trabalha pouco, mas também não desrespeite quem é profissional questionando preços só pra dizer que é esperto.

• Também não vai gastar tudo com um, dois, dez profissionais e pagar salários de fome pro resto só porque eles têm outro tipo de relação com você (já são seus funcionários, dependem de você, não têm outra saída, etc. e tal). Além de injusto é perigoso: gente insatisfeita e sentindo-se injustiçada dentro de comitê eleitoral é um rastro de pólvora.

• Deu pra entender até aqui ou quer que eu desenhe? Desculpa, mas esse assunto de quanto custa uma campanha é enlouquecedor. E a melhor resposta, de longe, é: depende da campanha. Tem a da improvisação e tem a pra ganhar. Tem a da burocracia e tem a profissional. Tem a do time coeso e tem a da divisão. Tem a dos apoios leais e tem a dos arrivistas. Tem a dos que só vão na boa e tem a dos que estão lá em todas as horas. Tem a do desperdício e tem a da eficiência. Qual vai ser a sua?

• Depois de saber sua real possibilidade de gastos, o recomendável hoje em dia é contratar logo o seu coordenador jurídico. Como diz o meu amigo Mario Edson, “nos tempos atuais é melhor ter um candidato ruim com um jurídico bom do que ter um candidato bom com um jurídico ruim”. Pensa que ele tá exagerando só porque vai se formar advogado? Um pouco é, mas num tanto ele tem razão. Outro dia citei essa frase numa palestra e o advogado eleitoral que falou depois de mim disse que era a primeira vez que recebia um elogio de uma coordenadora de comunicação. Mas quer saber? É verdade. Se não souber a legislação, se não estiver em dia com o que pode e com o que não pode, se o jurídico não for muito ágil e preparado, você corre o risco de ganhar mas não levar. Duvida? Dê uma olhadinha rápida no site do TSE e acompanhe as cassações. Loucura!

• A esta altura você já deve ter pelo menos um advogado em sua equipe, pois se é candidato esse ano você já realizou convenção, já registrou sua candidatura, já está constituindo seu comitê financeiro. Mas pode ser que ainda não tenha formado todo o time jurídico, cujo trabalho vai lá até o Dia D. Para levantar os custos desta contratação, leve em consideração que você vai precisar de profissionais que acompanhem especificamente as áreas financeira e de comunicação bem de perto, pois são dois setores que precisam de assessoria jurídica o tempo todo. Veja bem como vai distribuir a sua estrutura, inclusive fisicamente.

• O seu coordenador jurídico pode ser um profissional independente ou representar um escritório. O importante é dar a ele liberdade para que atue com os profissionais da sua (a dele) confiança e que haja relacionamento fácil com as demais áreas da campanha. Se a sua campanha vai ousar, procure um advogado mais peitudo. Se a sua campanha vai ser papai-com-mamãe, vá pelo mais tradicional. Contrate sabendo quem é quem e não apenas quem está mais perto. Cada um tem um estilo. Cada campanha tem uma estratégia. Mas se for para definir o ponto básico na hora de contratar, a questão a prestar atenção é se o time do jurídico tem experiência em campanha eleitoral.

• Não acompanhou a conversa? Pois já estive em campanha grande com jurídico amigo da família que nunca tinha participado de uma eleição por dentro. Por melhor que seja o escritório, não adianta. Até o cara entender, chegou o 5 de outubro. Mas se não tem outro jeito, se no seu município não tem alguém especializado, então opte por gente batalhadora e bem-relacionada. Um time de advogados lutadores, incansáveis e informados já é um bom começo. Porém tome cuidado: as ações jurídicas fazem parte da estratégia geral da campanha, não podem ser dissociadas. Se você é a favor da liberdade de expressão, não pode o seu jurídico sair caçando tudo que é blogueiro.

• Outra coisa: erros e inocências jurídicas deixam os juízes furiosos. E com razão: eles têm um sem número de ações para examinar, se alguém entra com bobagem que significa perda de tempo, só por entrar ou para fazer a vontade do chefe (você!), dá mau humor mesmo. Então, todo cuidado é pouco, todo profissionalismo é fundamental na hora de escolher o seu jurídico. Nunca pegue aqueles que jogam pra torcida. Bons de tomar uísque junto, ruins de serviço. E isso vale para todas as áreas.

• Voltando mais uma vez ao começo: lembre sempre que o seu coordenador-geral é quem dirige a estratégia e as diversas táticas da campanha como um todo. Ele tem realmente que coordenar todas as áreas, saber como fazer, como definir, como decidir, senão, por melhor que sejam os vários profissionais contratados, sem comandante qualquer barco afunda.

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