Como organizar uma campanha eleitoral IV

Posts anteriores: Como organizar uma campanha eleitoral I , Como organizar uma campanha eleitoral II e Como organizar uma campanha eleitoral III

• Defino mobilização como a vida que pulsa na campanha.

• Porque, vamos combinar, sem gente nas ruas, sem o colorido das bandeiras, sem a movimentação nos bairros, sem os carros de som, sem a conversa ao pé do ouvido, sem os adesivos nos carros, sem discurso, sem palanque, sem um eventinho aqui, outro acolá, a campanha fica muito morna. É verdade ou não é? Ou você é daqueles que odeiam quando um alto-falante toca jingle político embaixo da sua janela? Sem ofensa, mas você tá fazendo o que aqui?

• Então, objetivando: a gente já falou aqui da coordenação-geral da campanha, do organograma, do conselho político, do financeiro, do jurídico, da logística, vamos saber agora como organizar bem essa área, a da mobilização.

• Antes de pegar no pesado, só mais um parêntese, juro que é importante: a gente sabe que as campanhas vêm mudando muito nos últimos anos, que a nossa democracia está em processo de amadurecimento e que, também por isso, a cada eleição novas regras são incorporadas, nunca é a mesma coisa. Isso faz com que todos nós tenhamos que nos adaptar – o financeiro, a comunicação e o jurídico são áreas que a cada dois anos, nestes últimos anos, quase que precisaram se reinventar, pois tiveram que adaptar práticas já tradicionais a alguma nova legislação ou tecnologia.

• Mas isso é peixe pequeno perto das transformações que ocorreram na área da mobilização. Primeiro por causa dos humanos. Sim, no início existia a militância. Sabe, aquelas pessoas que empunhavam bandeiras, literalmente, pela causa e saíam cabulando votos dia-e-noite, brigavam na rua pelo seu candidato? Aí na sua cidade esse pessoal também foi abduzido? Pois é, aqui sumiram todos e foram substituídos por um povo com cara de mosca-morta que mal equilibra suas bandeiras e só em horário comercial nas (mesmas) principais esquinas por onde a gente passa.

• Além destes tais militantes, também sumiram, desde as últimas eleições, aqueles outros humanos do tipo que só diziam sim, por uma coisa à toa, uma boa noitada de comício, uma camiseta, um brinde, uma linguiçada, qualquer coisa assim.

• Tá, não era ali que a gente ganhava voto. Mas os showmícios produziam imagens grandiosas, davam emoção na edição da TV, era uma beleza pra comunicação. Agora, como reunir uns gatos pingados sem ser produção pra filmar comercial de campanha? Como mostrar que o povo vestiu a camisa do candidato se nem camiseta mais tem?

• A primeira tarefa do coordenador de mobilização é conhecer muito bem as estruturas da chapa proporcional.

• Em português claro: saber quem são todos os candidatos a vereador da coligação do seu candidato a prefeito, quantos votos podem fazer, em quais regiões, como, quando e com quem. Pegando carona no esquema de mobilização dos candidatos proporcionais, muitas vezes muito maior que o nosso, do majoritário.

• E ainda que a sua campanha nade em dinheiro uma das tarefas da mobilização é coordenar a agenda do majoritário com os proporcionais, o que é bom pra todo mundo. Ganha o candidato a vereador com a presença em seu evento do candidato a prefeito, ganha o candidato a prefeito falando para os eleitores do seu apoiador.

• Depois da chapa proporcional, procure levantar quem são os demais apoiadores e as principais lideranças que estão ou que podem estar na sua campanha. Um presidente de associação de bairro, alguém que foi candidato em outra eleição e já fez votos na região, uma liderança comunitária, étnica, sindical, de categoria profissional, podem ser amigos, enfim, faça uma lista de gente que tem vontade de trabalhar e poder de… mobilização. Entre em contato com cada um deles e monte uma agenda. Coordene com eles a abertura de comitês, a distribuição de materiais, os eventos que eles vão fazer e que podem (ou não) contar com a presença do candidato, e assim por diante.

• O fundamental é que você possa ter nas mãos, ou melhor, na parede, um grande e detalhado mapa com todo o seu exército, podendo movê-lo de acordo com as suas necessidades e possibilidades.

• Ainda tem gente interessada em abrir a casa e reunir os amigos para conhecer o seu candidato, ainda tem gente que quer liderar um comitê, ainda tem família, amigos, funcionários, colaboradores que querem ser voluntários numa campanha eleitoral. Pois não perca essa gente de jeito nenhum, cuide para que elas sejam um pontinho no seu mapa, pois assim além de saber o que elas andam fazendo, você ainda pode dar tarefa para elas. E na verdade todo mundo gosta de receber tarefa, que é melhor que inventar o que fazer, certo?

• Caberá a você também organizar a ocupação visual da sua cidade e a distribuição do material do seu candidato. Essa é uma tarefa que você vai fazer junto com o coordenador de logística, que conforme a gente já viu é quem vai encomendar o quantitativo de material e também é quem vai contratar o pessoal pago para balançar bandeira, colar adesivo, distribuir jornalzinho e panfleto e tudo mais que você programar. Cuide para aplicar os recursos disponíveis de forma racional: nem muito nem pouco. Já vi campanha perder por excesso de gente paga, de material caro, de bandeira demais nas esquinas. Não é invenção não: o povo não é bobo e não gosta desse tal de abuso do poder econômico. Tome cuidado também para não ser tão modesto (ou imprevidente, vai lá) e deixar o seu adversário tomar as ruas e você ficar de fora. Porque também tem aquela máxima verdadeira de que o eleitor não quer “perder o voto”. E se você não existe nas ruas, as pessoas entendem que você não é competitivo. Dois + dois = muito bem!

• A prática chamada “casa a casa” já foi um enorme diferencial de campanha, quando pouca gente sabia como fazer. Hoje todo-mundo-faz, seja com geoprocessamento, com estudantes contratados, com funcionários públicos em férias, com exército de tudo quanto é jeito. Mas ainda é uma ciência que merece a sua dedicação. Porque sem casa a casa: a campanha não rola. Porque é no casa a casa que dá pra entender bem o que está pensando o eleitor, é no casa a casa que dá pra ganhar intimidade, é no casa a casa que dá pra preparar terreno pra visita do candidato no bairro, é no casa a casa que dá pra distribuir material qualificado, é no casa a casa que dá pra mapear o seu eleitor, é no casa a casa que… Recomendo forte, mesmo que você não possa cobrir a cidade toda, organize um casa a casa competente e seus votos vão se multiplicar. Vai fundo!

• Parte importante da mobilização, a dos eventos, desde 2006, ficou bem chatinha. Não dá pra oferecer comida nem show nem nada. Então me diga, do fundo do coração: quem é que vai num evento, que seja um aniversário de criança, sem música, sem brigadeiro, sem lembrancinha? Tudo bem, você diria, é só pra cantar parabéns, quer dizer, pra discutir a proposta.

• Enfim, evento tem que ter e aí vai depender da sua criatividade e da generosidade dos seus apoiadores. Pois diz a lei que o candidato não pode oferecer nenhum benefício para os seus eleitores, mas não diz que os eleitores não podem oferecer benefício para os candidatos. Como jantar, almoço, lanche, linguiçada, chope, café-da-manhã, chá com bolo e outras refeições menos votadas significam, para a legislação, benefício, o caminho é arrumar quem queira pagar pra jantar com o seu candidato. Deve existir gente assim, não? Oras…

• Finalmente, a última tarefa da mobilização é também a última da campanha: o Dia D. Não, não vamos ocupar a Normandia, mas temos que ocupar a cidade no dia da eleição. É fundamental, embora hoje tenha muita proibição. Ainda assim, é sua obrigação credenciar fiscais para todas as seções eleitorais e treiná-los com antecedência junto com o pessoal do jurídico.

• Como é necessária uma multidão para esta ocupação, então sugiro que você comece logo a pensar onde você vai encontrar tanta gente de confiança. Isso mesmo: corre pra procurar, em vez de ficar navegando na internet, cara, que o tempo…

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